O debate sobre quem deve representar o bolsonarismo na disputa pelo Governo de Mato Grosso em 2026 segue longe de um consenso. Com ao menos dois nomes colocados no tabuleiro da direita o senador Wellington Fagundes (PL) e o vice-governador Otaviano Pivetta (Republicanos) a disputa pela legitimidade do espólio político de Jair Bolsonaro já expõe fissuras, desconfianças e cobranças internas. Nesta terça-feira (5), o deputado estadual Gilberto Cattani (PL) lançou um olhar crítico sobre os nomes postos, relativizou o passado político dos pré-candidatos e deixou claro que, no campo conservador, apoio não será concedido sem coerência ideológica.
Ao comentar qual nome teria força para representar o bolsonarismo em Mato Grosso, especialmente após o desgaste enfrentado por Wellington Fagundes durante evento em Poxoréu, Cattani adotou tom cauteloso e afirmou que nenhum dos pré-candidatos ostenta um histórico político que hoje orgulhe integralmente a base conservadora.
“Olha só, no passado todos os candidatos que estão postos hoje aí não temos nenhum que tenha um passado que a gente possa se orgulhar dele. Nós temos um passado de todos os pré-candidatos aí que estão ligados intimamente à esquerda. Então é muito difícil você falar sobre o passado das pessoas”, afirmou.
A declaração evidencia um ponto sensível no campo da direita mato-grossense: embora os nomes em disputa busquem hoje o aval do eleitorado bolsonarista, ambos carregam trajetórias políticas anteriores que ainda geram resistência entre setores mais ideológicos da base.
Apesar da crítica, Cattani ponderou que mudanças de posicionamento político são possíveis e afirmou que Wellington tem demonstrado alinhamento com a direita conservadora no exercício do mandato em Brasília.
“Todo mundo tem o direito de mudar de rumo, de se arrepender. E fazer a coisa certa. Se isso acontecer, eu tenho certeza que nós podemos ter um candidato que represente isso. O senador Wellington tem feito isso no Senado. O senador Wellington tem dado demonstração que está do nosso lado no Senado”, declarou.
A sinalização, embora positiva ao senador liberal, veio acompanhada de um alerta. Para Cattani, uma eventual composição com o MDB pode comprometer a coerência do discurso conservador e enfraquecer a credibilidade da candidatura junto à base bolsonarista.
“Agora, nós temos também rumores aí de uma aliança, por exemplo, com um partido que sempre foi esquerda e é a esquerda de Mato Grosso até hoje, que é o MDB. Aí, se ele fizer isso, a coisa se complica um pouco pra campanha dele, no meu entendimento”, avaliou.
A crítica reforça a resistência de parte do bolsonarismo local à possibilidade de alianças pragmáticas com partidos de centro e centro-esquerda, ainda que essas composições sejam comuns no jogo eleitoral.
Cattani também endossou o posicionamento do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), que já havia se manifestado contra uma eventual aproximação entre PL e MDB no estado. Para o deputado, qualquer comparação com arranjos construídos no cenário nacional não se sustenta quando o debate está centrado na realidade política de Mato Grosso.
“Sim, nós estamos falando do governo do Mato Grosso, então não tem nada a ver, absolutamente nada a ver com a Nacional”, pontuou.
Ao final, Cattani também comentou a possibilidade de interferência da família Bolsonaro na definição do palanque bolsonarista em Mato Grosso. Ao diferenciar o peso político de Flávio Bolsonaro e do ex-presidente Jair Bolsonaro, o parlamentar foi direto ao indicar onde, de fato, reside a autoridade dentro do campo conservador.
“Olha só, o Flávio não vai pedir. O Abilio falou, mesmo se o Bolsonaro pedisse, ele não atenderia. No meu caso é diferente, o Bolsonaro não pede, ele manda. Se ele mandar, manda quem pode, obedece quem tem juízo. Agora o Flávio não vai. Nós sabemos que o Flávio não vai fazer isso”, concluiu.
A fala escancara o estágio atual da disputa: mais do que uma corrida por candidatura, o que está em jogo é a disputa pelo selo de legitimidade bolsonarista em Mato Grosso um ativo político que, ao que tudo indica, seguirá em aberto até que Jair Bolsonaro decida a quem pertence seu palanque no estado.