Por: Cláudio Cordeiro
No Brasil de hoje, a narrativa que permeia o sistema de justiça é uma que incomoda, mas poucos se atrevem a confrontar de forma direta. Estamos diante de uma realidade onde muitos criminosos, após cometerem atos bárbaros como roubo, homicídio e corrupção, encontram uma rota de fuga na própria estrutura que deveria puni-los: o sistema judicial. Mais do que uma falha individual, é uma falha coletiva que reverbera por toda a sociedade. São crimes que destroem vidas e comunidades, mas que acabam sendo lavados e absolvidos pela máquina legal, muitas vezes mediante a influência do poder econômico.
O ciclo de impunidade no Brasil, especialmente quando relacionado a criminosos de colarinho branco, expõe uma fragilidade que vai além das leis: atinge diretamente o conceito de justiça social. O Código Penal estabelece um caminho claro para quem rouba ou mata, mas o mesmo não se aplica com rigor quando o infrator possui dinheiro, influência ou poder. Na prática, quem detém esses recursos muitas vezes se safa, seja por meio de bons advogados, brechas legais ou acordos judiciais. O criminoso milionário, ao invés de ser condenado como tal, acaba retornando à sociedade como um cidadão “reintegrado” e, frequentemente, ostentando seu patrimônio como símbolo de sucesso e poder.
E assim, vemos essas pessoas circulando livremente, como se os crimes que cometeram fossem uma sombra distante. Reconhecemos seus rostos em festas, eventos de gala, nas colunas sociais, onde são tratados com respeito, como se fossem exemplos de moralidade e honestidade. No entanto, a memória da sociedade, por mais que possa ser curta, sabe quem realmente são. Eles infringiram as leis, roubaram da população, destruíram vidas – e por mais que tenham conseguido evitar a totalidade da punição que mereciam, jamais poderão ser considerados verdadeiros cidadãos de bem.
Essa lógica de absolvição pela riqueza não é algo exclusivo do Brasil. Na história contemporânea, podemos observar em diversas democracias modernas um padrão similar, onde a justiça parece pesar mais para os pobres do que para os ricos. Isso remete ao conceito de “criminologia crítica”, que desafia a noção de que a justiça é neutra e cega. A criminologia crítica afirma que o sistema judicial, em sua essência, é influenciado por relações de poder e desigualdade social. Ao abordar essa questão sob a ótica de autores como Michel Foucault, percebemos que a justiça é um dispositivo de controle, onde o poder se perpetua ao favorecer as elites econômicas e políticas, deixando os marginalizados à mercê das punições mais severas.
Na prática, o dinheiro compra a narrativa: compra o direito de ser visto como vítima de “perseguições políticas”, compra a possibilidade de ser absolvido por falta de provas, mesmo quando os crimes são claros, compra o direito de ser tratado como herói por aqueles que desejam se associar ao poder.
No entanto, não podemos, como sociedade, aceitar passivamente que essas pessoas retornem ao convívio social como exemplos de moralidade. A absolvição judicial, em muitos casos, é apenas uma formalidade processual, que não reflete a verdadeira justiça. O fato de um criminoso não cumprir toda a pena, ou até mesmo ser libertado por força de acordos ou interpretações legais dúbias, não o transforma em uma pessoa justa. A justiça dos homens pode falhar, mas a verdade sobre os atos cometidos não pode ser apagada.
A própria noção de justiça restaurativa, tão debatida no direito moderno, clama pela reintegração social dos indivíduos. No entanto, ela também exige um processo de reparação real, de arrependimento e transformação. Quem nunca admitiu seu erro, quem continua a circular ostentando o fruto de seu crime, não pode ser visto como alguém que merece tal reintegração. Trata-se de uma farsa social, um teatro onde todos fingimos que o criminoso, agora enriquecido, pagou pelo que fez, quando na verdade ele apenas comprou sua liberdade.
Portanto, cabe a nós, enquanto sociedade, mantermos vivos os valores de justiça que vão além da corte legal. A verdade sobre o caráter dessas pessoas não se dissolve com uma absolvição judicial. Elas seguem sendo criminosas aos olhos da moralidade e da ética, independentemente do que seus advogados conseguiram conquistar nos tribunais.
A impunidade dos ricos desafia não apenas as normas do direito, mas também a estrutura de valores que deveria guiar nossa sociedade. E ao permitir que esses indivíduos sejam celebrados como “cidadãos de bem”, estamos não apenas manchando a noção de justiça, mas também perpetuando um ciclo vicioso onde o crime compensa contanto que você tenha dinheiro para pagar o preço.
O Brasil, assim como muitas outras nações contemporâneas, precisa urgentemente romper esse ciclo. A justiça não pode ser apenas uma questão de dinheiro e poder. Não podemos aceitar que os bandidos milionários sejam absolvidos no papel e, mais grave ainda, celebrados na vida social. Afinal, por mais que as leis dos homens os perdoem, as marcas de seus crimes continuam escritas na história de suas vítimas e no tecido social que eles corromperam.
Esse enfoque denuncia não apenas a falha jurídica, mas também a nossa cumplicidade como sociedade em aceitar que aqueles que infringem a lei, se forem ricos o suficiente, possam voltar como “pessoas de bem”. A verdadeira justiça, aquela que não pode ser comprada, precisa prevalecer.
Cláudio Cordeiro é consultor de marketing político e eleitoral, CEO da Gonçalves Cordeiro, publicitário e advogado