Conselho de Justificação da Polícia Militar ouvirá quatro testemunhas já ouvidas pela Polícia Civil no caso da morte da soldado Gisele Alves; oficial responde preso e pode perder posto, patente e salário
Quatro testemunhas que já relataram à Polícia Civil episódios de controle, ciúmes e comportamento possessivo envolvendo o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto serão ouvidas pelo Conselho de Justificação da Polícia Militar de São Paulo, no processo administrativo que pode resultar na expulsão do oficial da corporação.
As oitivas integram a fase de instrução do procedimento interno instaurado em abril pela Polícia Militar para avaliar se o oficial reúne condições morais e funcionais de permanecer na instituição. As novas audiências estão marcadas para os dias 11 e 14 de maio, conforme publicação no Diário Oficial do Estado.
Geraldo Neto responde preso ao Conselho de Justificação e também é réu na esfera criminal pela morte da esposa, a soldado Gisele Alves, de 32 anos. Segundo o Ministério Público, ela foi morta com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde o casal vivia, no Brás, região central de São Paulo.
O oficial, de 53 anos, está preso preventivamente desde 18 de março no Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte da capital paulista. Ele responde por feminicídio e fraude processual. A acusação sustenta que Neto matou a esposa e tentou simular um suicídio. A defesa nega e afirma que Gisele tirou a própria vida.
Depoimentos reforçam rotina de controle
Entre as testemunhas convocadas estão um policial militar que foi o primeiro a chegar ao local da ocorrência e três agentes da PM que mantinham relação próxima com Gisele e já haviam prestado depoimento durante a investigação criminal.
No dia 11 de maio, serão ouvidas uma soldado e uma primeiro-tenente. Já no dia 14, prestarão depoimento uma subtenente e uma cabo.
Nos relatos já colhidos pela Polícia Civil, as testemunhas descrevem uma rotina marcada por vigilância, controle e ciúmes excessivos por parte do tenente-coronel.
Uma soldado que conviveu com Gisele afirmou que o oficial monitorava redes sociais, controlava aplicativos de mensagens e se escalava para as mesmas atividades profissionais da esposa com o objetivo de vigiá-la. Segundo o depoimento, ele também restringia o uso de maquiagem e perfume dentro de casa, o que fazia com que Gisele se arrumasse apenas no ambiente de trabalho.
A testemunha relatou ainda episódios de perseguição, incluindo situações em que o tenente-coronel observava a esposa escondido atrás de pilastras. Segundo ela, Gisele dizia que pretendia se divorciar, reorganizar a vida financeira e temia o comportamento do marido.
Amigas relataram medo e tensão constante
Outra testemunha, uma sargento próxima da vítima, afirmou que Geraldo Neto frequentava quase diariamente o local de trabalho da esposa, permanecendo na porta da seção e observando sua rotina. Segundo ela, Gisele demonstrava tensão constante na presença do marido e relatava conflitos frequentes motivados por ciúmes e comportamento possessivo.
A policial também afirmou que Gisele nunca apresentou sinais de ideação suicida e que, ao longo dos anos de convivência, jamais mencionou qualquer intenção de tirar a própria vida.
Uma cabo ouvida pela investigação confirmou o padrão de vigilância e relatou que o oficial costumava ouvir conversas, monitorar colegas da esposa e perseguir pessoas próximas a ela. Segundo o depoimento, Gisele falava em separação desde setembro de 2025, após descobrir um possível relacionamento extraconjugal do marido.
Primeiro policial no local apontou inconsistências
O primeiro-tenente que atendeu a ocorrência afirmou ter estranhado a cena encontrada no apartamento. Segundo o depoimento, Gisele estava caída no chão com a arma sobre a perna e não havia cartuchos visíveis no local.
Ele relatou ainda que, apesar de já ter atendido ocorrências semelhantes, a cena chamou atenção pelo nível incomum de preservação. Também afirmou que o tenente-coronel passou grande parte do tempo ao telefone, tentou tomar banho após a retirada da vítima e, embora tenha ido ao Hospital das Clínicas, permaneceu no estacionamento durante todo o período.
O que está em julgamento
O Conselho de Justificação é um procedimento administrativo interno da Polícia Militar, instaurado por resolução da Secretaria de Segurança Pública, para apurar se um oficial mantém condições éticas, morais e funcionais de permanecer na corporação.
Formado por três coronéis da PM, o colegiado pode recomendar a perda do posto e da patente, além da exclusão definitiva da corporação, independentemente do desfecho da ação penal.
Mesmo aposentado desde 2 de abril, Geraldo Neto continua recebendo remuneração da corporação. Antes da prisão, em fevereiro de 2026, o salário bruto do oficial era de R$ 28,9 mil, segundo o Portal da Transparência do governo de São Paulo. Caso seja expulso, ele também poderá perder o benefício.
No último dia 29 de abril, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que a eventual responsabilização criminal do tenente-coronel deverá ser julgada pela Justiça comum.