A presença feminina na política brasileira avançou, mas ainda está longe de representar a força que as mulheres exercem na sociedade, na economia e na vida pública. Mais do que aumentar números nas estatísticas eleitorais, o desafio está em fazer com que mulheres preparadas tenham espaço para disputar, decidir e participar efetivamente da construção das políticas públicas.
Dados das eleições municipais de 2020 ajudam a dimensionar essa mudança. Naquele pleito, 21,2% das candidaturas a vice-prefeita eram de mulheres, contra 17,5% em 2016. O número de mulheres eleitas para o cargo também cresceu, passando de 834 para 927.
Os números mostram avanço, mas também revelam uma desigualdade que não pode ser ignorada. Em 2020, apenas uma pequena parcela das chapas era formada exclusivamente por mulheres, enquanto a maioria ainda era composta por homens nos dois postos principais. Isso demonstra que a participação feminina cresceu, mas o acesso aos espaços de maior poder de decisão continua sendo um desafio.
Para mudar esse cenário, entretanto, não basta defender mulheres na política apenas por serem mulheres. É preciso defender mulheres que tenham preparo, independência, capacidade de gestão e clareza sobre aquilo que pretendem fazer quando chegarem ao poder.
Essa discussão ganha ainda mais importância diante do crescimento do empreendedorismo feminino. Mulheres estão à frente de empresas, propriedades rurais, pequenos negócios, escritórios, indústrias e iniciativas que movimentam a economia. Muitas administram equipes, enfrentam burocracias, gerenciam recursos e tomam decisões diariamente. Essa experiência também pode contribuir para a administração pública.
Uma política comprometida com responsabilidade fiscal, liberdade econômica, geração de empregos e valorização de quem empreende precisa considerar essa participação feminina. A mulher que conhece as dificuldades de abrir e manter um negócio sabe, na prática, o peso dos impostos, da burocracia e da falta de previsibilidade.
Mas a presença feminina na política também precisa alcançar questões que afetam diretamente as famílias.
É necessário discutir políticas públicas capazes de oferecer proteção às mulheres vítimas de violência, fortalecer a atenção básica em saúde, melhorar o atendimento às mães e ampliar mecanismos de prevenção ao feminicídio. Não basta criar estruturas no papel. É preciso que elas funcionem, tenham recursos e sejam acessíveis a quem precisa.
Também é importante reconhecer que mulheres não formam um grupo político homogêneo. Existem diferentes visões sobre economia, segurança, família, educação, saúde e administração pública. A participação feminina não precisa significar uniformidade de pensamento.
Ao contrário, a democracia se fortalece quando mulheres com diferentes experiências, valores e posições conseguem participar do debate público.
Por isso, diante de cada eleição, a discussão deveria ir além do slogan de que “mulher vota em mulher”. O eleitorado feminino é diverso e tem autonomia para escolher seus representantes a partir de suas convicções.
A questão fundamental é outra: por que tantas mulheres preparadas ainda hesitam em ocupar espaços de decisão?
Talvez parte da resposta esteja na própria cultura política brasileira, que muitas vezes transforma a política em ambiente de disputa pessoal, enquanto quem empreende, trabalha e administra uma família prefere manter distância desse universo.
É justamente essa distância que precisa ser repensada.
Mulheres que administram empresas, propriedades, instituições e famílias já exercem liderança todos os dias. Levar essa experiência para a vida pública pode contribuir para uma política mais conectada com a realidade de quem trabalha, produz e sustenta suas famílias.
O objetivo não deve ser substituir homens por mulheres, mas ampliar a participação e garantir que diferentes experiências estejam representadas nas decisões que afetam toda a sociedade.
A mulher não precisa ocupar o lugar de ninguém. Precisa ter condições para ocupar o seu próprio espaço, com liberdade para defender suas ideias, responsabilidade para exercer seus mandatos e coragem para transformar experiência em serviço público.
Mais mulheres na política, portanto, não devem significar apenas mais candidaturas. Devem significar mais preparo, mais diversidade de ideias, mais responsabilidade e representantes verdadeiramente comprometidas com os problemas reais de suas comunidades.
Ana Barros é jornalista e atua como assessora de imprensa há mais de 15 anos.