O nome de uma das famílias de maior projeção no agronegócio de Mato Grosso passou a ocupar o centro da Operação Heritage, deflagrada a partir de uma investigação da Polícia Federal sobre uma suposta série de transações financeiras que envolvem recursos públicos, fundos de investimento e empresas ligadas a figuras do alto escalão político do Estado.
O grupo Piccini, comandado por uma família com forte atuação no setor agropecuário, teve bens e empresas atingidos por medidas autorizadas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal. Entre os alvos está Joci Piccini, vice-prefeito de Lucas do Rio Verde pelo União Brasil, além de empresas relacionadas ao chamado Grupo Piccini.
Segundo a investigação, empresas do grupo teriam participado do aporte inicial utilizado para a aquisição de direitos creditórios relacionados a uma disputa judicial envolvendo a operadora Oi e o Governo de Mato Grosso.
O caso ganhou dimensão ainda maior porque, de acordo com a Polícia Federal, parte dos recursos movimentados posteriormente teria chegado a estruturas empresariais relacionadas à família do ex-governador Mauro Mendes e ao então chefe da Casa Civil, Fábio Garcia.
A investigação também colocou sob análise a relação empresarial entre Mendes e os Piccini. Segundo a PF, os dois grupos mantinham participação na Parecis Bioenergia, empresa criada com a proposta de investir na produção de etanol de milho em Mato Grosso.
Negócio milionário no agro
A Parecis Bioenergia é um dos empreendimentos que ajudam a dimensionar o peso econômico dos envolvidos. A empresa anunciou um projeto de aproximadamente R$ 750 milhões para a construção de uma usina de etanol de milho em Diamantino, município estratégico para a produção agropecuária mato-grossense.
O empreendimento reúne investidores privados e famílias ligadas ao setor produtivo. Em 2024, o executivo responsável pelo negócio afirmou que os sócios tinham forte relação de confiança e haviam analisado detalhadamente o projeto antes de realizar os investimentos.
É justamente a composição societária e a movimentação financeira relacionada à empresa que passou a ser analisada pela Polícia Federal.
De acordo com a decisão de Flávio Dino, as empresas ligadas ao Grupo Piccini foram incluídas nas medidas judiciais porque, segundo a investigação, teriam sido responsáveis pelo aporte inicial de recursos destinados à aquisição dos direitos creditórios que estão no centro da operação.
Direitos da Oi e acordo com o Estado
A investigação apura uma operação que começou com a aquisição de direitos creditórios relacionados a um processo envolvendo a Oi e o Estado de Mato Grosso.
Segundo os elementos apresentados pela PF, um escritório de advocacia teria adquirido esses direitos por R$ 80 milhões e posteriormente os revendido a dois fundos de investimento.
Na sequência, o Governo de Mato Grosso firmou um acordo de aproximadamente R$ 308 milhões para encerrar a disputa judicial relacionada à operadora de telefonia.
A Polícia Federal investiga o caminho percorrido por parte desses recursos depois que o pagamento foi realizado pelo Estado.
Segundo a investigação, o dinheiro teria passado por diferentes fundos até chegar a estruturas empresariais relacionadas a famílias que mantinham relações políticas e empresariais em Mato Grosso.
A suspeita levantada pela PF é de que as operações societárias possam ter funcionado como mecanismo para transferir recursos públicos para patrimônios privados sob a aparência de negócios empresariais regulares.
Grupo tem forte presença no agronegócio
A inclusão do Grupo Piccini na investigação chama atenção justamente pelo peso econômico da família no agronegócio mato-grossense.
O grupo possui atuação relacionada ao setor produtivo e investimentos em diferentes áreas da economia, em um Estado que se consolidou como uma das principais fronteiras agrícolas do país.
Lucas do Rio Verde, onde Joci Piccini ocupa atualmente o cargo de vice-prefeito, é um dos principais polos do agronegócio de Mato Grosso e concentra grandes produtores, empresas de insumos, armazenagem, processamento e logística.
A presença da família em empreendimentos de grande porte também ampliou sua influência no ambiente empresarial do Estado.
A Parecis Bioenergia é um exemplo dessa estratégia de diversificação, ao aproximar o capital do agronegócio da indústria de transformação e da produção de biocombustíveis.
Relação empresarial com Mauro Mendes
A investigação também colocou sob escrutínio a relação entre os Piccini e Mauro Mendes.
Segundo a Polícia Federal, o então governador de Mato Grosso seria um dos sócios ocultos relacionados à estrutura empresarial da Parecis Bioenergia.
A relação é relevante para a investigação porque Mauro Mendes ocupava o comando do Governo do Estado justamente no período em que ocorreu o acordo envolvendo os direitos creditórios da Oi.
A PF busca esclarecer se as transações empresariais e financeiras analisadas tiveram alguma relação indevida com decisões tomadas no âmbito do poder público.
O fato de empresários e agentes políticos terem relações societárias não significa, por si só, a existência de irregularidade. É justamente essa eventual conexão entre negócios privados e recursos públicos que está sendo investigada pelas autoridades.
Mendes nega irregularidades
Mauro Mendes negou irregularidades relacionadas ao acordo com o escritório Ricardo Almeida.
Em manifestação publicada nas redes sociais, o ex-governador afirmou que a operação passou por diferentes órgãos de controle e que o acordo foi considerado legal e vantajoso para o Estado.
Segundo Mendes, o pagamento foi realizado dentro da legalidade e passou por análise da Procuradoria, do Tribunal de Contas, do Ministério Público de Contas e do Ministério Público Estadual.
Joci Piccini também foi procurado para se manifestar sobre a investigação. O contato foi buscado por meio da Prefeitura de Lucas do Rio Verde e da Fundação Rio Verde, que indicou a Amazônia Máquinas como canal de contato. Até a publicação, não havia manifestação do empresário.
Investigação ainda está em andamento
A Operação Heritage busca reconstruir o caminho percorrido pelos recursos e identificar os responsáveis por eventuais irregularidades.
As medidas determinadas pela Justiça, incluindo bloqueios de bens e buscas, fazem parte da fase de investigação e não representam, por si só, condenação ou comprovação definitiva de crime.
O caso envolve empresários, fundos de investimento, empresas do agronegócio e agentes políticos de Mato Grosso, colocando sob análise uma complexa rede de relações financeiras e societárias.
Agora, a expectativa é que a investigação consiga esclarecer se as operações analisadas pela Polícia Federal foram negócios privados legítimos ou se, conforme a hipótese investigativa, serviram para ocultar eventual transferência indevida de recursos.
Até que as apurações sejam concluídas, os envolvidos permanecem sob o princípio da presunção de inocência.