E quem faz campanha comigo já sabe disso.
Tenho uma frase que repito para todo candidato que senta comigo antes de fechar um plano de campanha: “se a senhora que administra a casa não acreditar em você, o senhor que administra a empresa também não vai acreditar.” Não é intuição. É o que 30 anos de rua, urna e pesquisa qualitativa me ensinaram, e é também o que uma pesquisa recente do cientista político Renato Dorgan, do Instituto Travessia de Pesquisas, acaba de confirmar com muita precisão: mulheres não votam de qualquer jeito. Elas constroem o voto.
E essa diferença, que parece sutil, é o que decide eleição.
Dorgan mostra algo que eu vejo campanha após campanha, prefeitura após prefeitura: para a eleitora, saúde não é orçamento nem indicador. É a consulta que não saiu, o remédio que faltou na farmácia do bairro, a fila que não andou. Educação não é meta de gestão. É a creche sem vaga, a professora que faltou, o filho andando longe demais para chegar à escola.
Isso acontece porque, goste-se ou não, ainda recai sobre a mulher a maior parte do trabalho invisível de cuidar da família. Ela sente a política pública na pele, todos os dias, muito antes de qualquer pesquisa de opinião chegar para medir isso.
Toda campanha que constrói discurso de saúde e educação em cima de número de obra entregue, sem contar a vida real por trás daquele número, está falando sozinha.
Um erro que vejo repetidamente em campanha: presumir que o eleitorado já decidiu meses antes da eleição. Com o público feminino, essa aposta é ainda mais arriscada. A pesquisa mostra, e a experiência de rua confirma, que a mulher segue comparando, observando comportamento, confrontando o que ouve com a própria realidade, até a reta final. O “poderia votar” é muito mais comum entre elas do que o “votaria com certeza”.
Isso não é indecisão fraca. É prudência. E prudência não se conquista com blitz de passeata na última semana, se conquista com consistência ao longo de toda a campanha.
Outro ponto que a pesquisa traz e que uso há anos em campanha: “roubar dinheiro público” é uma frase abstrata. “Desviar dinheiro da merenda” é outra coisa completamente diferente. Quando o adversário tem esse tipo de mancha, a peça de comunicação certa não fala em “improbidade administrativa”, fala em creche fechada, em remédio que sumiu, em hospital sem equipamento. É isso que revolta, e revolta mais forte entre as mulheres.
Vivemos um momento em que muita campanha confunde grito com força e ataque com coragem. Já vi candidato aplaudido em live de madrugada perder terreno justamente com o público feminino, porque ela consegue, com uma clareza impressionante, separar duas coisas: concordar com a posição do candidato e rejeitar o jeito agressivo como ele se comporta.
Dá para ser firme em segurança, em economia, em qualquer pauta considerada “dura”, sem transformar toda divergência em guerra pessoal. Quem não entende essa diferença perde voto que já tinha ganhado.
“Vou acabar com a fila”, “vou construir dez hospitais”, “vou dobrar o emprego” — pacote fechado assim, sem explicação de como, quando e com que dinheiro, soa vazio para a maioria das eleitoras. E soa vazio justamente porque quem administra orçamento de casa sabe que escolha envolve corte, prazo e prioridade. É teste de realidade, todos os dias, na ponta do lápis.
Em toda campanha que assino, insisto no mesmo ponto com o candidato: prometa menos e explique mais. “Como” vale mais voto do que “quanto”. O menos é mais.
Errado quem pensa que mulher quer discurso brando em segurança pública. O medo dela é real e é mais amplo do que se imagina: o caminho até o ponto de ônibus, o filho que volta tarde, a filha adolescente, a violência doméstica, a droga perto da escola. Ela quer política, investigação e presença do Estado, mas ela também faz uma pergunta que discurso de bravata não responde: “isso vai deixar minha família mais segura de verdade?”
Depois de cinco vitórias em campanhas majoritárias de prefeito na eleição pretérita, aprendi que o voto feminino se decide por uma pergunta silenciosa, quase nunca verbalizada: essa pessoa parece preparada, equilibrada, e cumpre o que promete? Quando o candidato ultrapassa o limite entre firmeza e impulsividade, é exatamente aí que a eleitora entra com o freio.
Por fim, o alerta mais importante, tanto da pesquisa de Dorgan quanto da minha própria experiência de estrategista: mulher não é pauta eleitoral. Não é “proposta cor-de-rosa” nem evento temático de última hora em outubro. Ela quer discutir emprego, inflação, saúde, segurança, transporte e impostos, os mesmos temas de qualquer eleitor, com o agravante de que, em grande parte das famílias e das comunidades, é ela quem primeiro organiza e repassa essas informações no dia a dia.
Não existe “a mulher brasileira”. Existem milhões de eleitoras diferentes entre si, em classe, idade, religião, região. Mas a forma como avaliam um candidato, pelo equilíbrio, pela coerência entre discurso e comportamento, pela capacidade real de resolver problema concreto, se repete com uma regularidade que nenhuma campanha inteligente pode ignorar.
Quem entende isso planeja campanha diferente. Quem ignora, perde no primeiro turno sem nem entender por quê.
*Cláudio Cordeiro é publicitário, consultor político e estrategista de marketing eleitoral, CEO da Gonçalves Cordeiro Publicidade, autor do livro “Inteligência Política Eleitoral” e responsável por cinco vitórias em campanhas majoritárias de prefeito em Mato Grosso na eleição passada. A análise dialoga com a pesquisa “Mulheres Votam Melhor”, do cientista político Renato Dorgan, CEO do Instituto Travessia de Pesquisas.*