Durante séculos, as mulheres lutaram para conquistar direitos que hoje parecem naturais. O direito ao voto, ao estudo, ao trabalho, à participação política e à ocupação de espaços de liderança não foram concessões espontâneas da sociedade, mas resultados de décadas — e até séculos — de luta, perseverança e resistência feminina.
No Brasil, a igualdade entre homens e mulheres foi consagrada pela Constituição Federal de 1988, e estabelece que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Entretanto, muito antes da proteção constitucional, milhares de mulheres enfrentaram preconceitos e barreiras para conquistar direitos básicos, inclusive o direito ao divórcio, à autonomia patrimonial, à participação política e à independência profissional.
Diversas leis brasileiras foram construídas especificamente para proteger as mulheres em razão de desigualdades historicamente existentes. A Lei Maria da Penha, as políticas de combate à violência doméstica, as cotas de participação política, as normas de proteção à maternidade e as políticas públicas voltadas à saúde da mulher são exemplos de direitos que nasceram justamente do reconhecimento da condição feminina.
Hoje, as mulheres estão presentes em todos os setores da sociedade. No agronegócio, um dos pilares da economia brasileira, a presença feminina cresce de forma expressiva. São agricultoras, produtoras rurais, pecuaristas, engenheiras agrônomas, médicas veterinárias, técnicas agrícolas, administradoras, pesquisadoras, tratoristas e advogadas especializadas em Direito Agrário, demonstrando que competência, dedicação e liderança não possuem barreiras.
A mulher do campo deixou de ser apenas colaboradora da propriedade rural para assumir funções de gestão, administração, sucessão familiar e liderança empresarial. Muitas propriedades rurais já são conduzidas integralmente por mulheres, que conciliam a produção, a gestão e a participação em entidades representativas do setor.
Entretanto, um novo debate vem preocupando muitas mulheres. Em alguns discursos e documentos, a palavra “mulher” vem sendo substituída por expressões como “pessoas que menstruam”, “pessoas que gestam” ou “corpos gestantes”.
Para a grande maioria das mulheres, essas terminologias representam um retrocesso. Isso porque a identidade feminina não se resume a uma função biológica. A palavra “mulher” carrega uma construção histórica, jurídica, cultural e social que não pode ser reduzida apenas à capacidade de menstruar ou gestar.
As mulheres não lutaram durante décadas para serem chamadas de “pessoas que menstruam”. Lutaram para serem reconhecidas como mulheres: mulheres que menstruam, mulheres que gestam, mulheres que são mães, profissionais, empreendedoras, produtoras rurais e protagonistas de suas próprias histórias.
Defender a palavra “mulher” não significa negar direitos ou desrespeitar outras pessoas. Significa reconhecer que a identidade feminina possui uma trajetória histórica construída ao longo de gerações. As próprias políticas públicas destinadas às mulheres existem porque o Estado reconheceu desigualdades específicas enfrentadas pelas mulheres ao longo da história.
No agronegócio, esse reconhecimento é ainda mais importante. As mulheres conquistaram espaço em um setor historicamente masculino e transformaram a realidade do campo brasileiro. Elas produzem alimentos, geram empregos, administram propriedades e contribuem diretamente para o desenvolvimento econômico do país.
A evolução da sociedade deve ampliar direitos e promover respeito a todos. Contudo, ampliar direitos não exige apagar a história das mulheres nem substituir uma identidade construída ao longo de séculos de lutas e conquistas.
Ademais, a discussão sobre representatividade também se torna sensível quando cargos ou espaços destinados à representação das mulheres são ocupados por pessoas trans. A questão levantada não diz respeito à dignidade ou aos direitos individuais, mas à experiência histórica feminina. Assim como uma pessoa branca não vivencia a história do racismo sofrido pela população negra apenas por se identificar com ela, muitas mulheres entendem que as experiências relacionadas à condição feminina — como a desigualdade histórica, a maternidade, a violência de gênero e as lutas sociais das mulheres — constituem uma trajetória própria, que não pode ser simplesmente transferida ou substituída.
Reitero que as mulheres do agro não são “pessoas que menstruam”. São mulheres que produzem, lideram, empreendem, educam, administram, gestam, cuidam e ajudam a alimentar o Brasil e o mundo.
A sociedade deve avançar, mas jamais retroceder no reconhecimento da identidade das mulheres e das conquistas alcançadas por gerações de mulheres que abriram caminho para aquelas que hoje ocupam o campo, as empresas, as universidades, os tribunais e todos os espaços da vida pública.
Por FLAVIANE RAMALHO – advogada há 21 anos, com pós-graduações em Direito Agrário, Direito Previdenciário, e Direito do Agronegócio, Membro da Comissão de Direito Agrário da OAB/MT, Membro da Academia Brasileira de Direito do Agronegócio – ABRADA, Certificada Quality Brasil, Membro Certificada do LAQI, integrando o modelo de Excelência Latino-Americano, e condecorada internacionalmente “The Lawyer of the Year 2025 – Highly Commended pelo Latin American Quality Institute, e Global Law Firm Quality Certification 2025.