Após dias de forte repercussão política e pressão de profissionais da saúde, o governador Otaviano Piveta tentou encerrar neste sábado (26) a crise em torno da reestruturação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) em Mato Grosso. Em declaração à imprensa, o chefe do Executivo negou que o serviço esteja sendo extinto, afirmou que houve falha na interpretação de sua fala anterior e defendeu a integração do atendimento com o Corpo de Bombeiros como medida para ampliar a agilidade no socorro à população.
A declaração ocorre após o anúncio de mudanças na estrutura do serviço provocar reações imediatas entre deputados estaduais, trabalhadores da saúde e representantes sindicais, que passaram a denunciar risco de enfraquecimento do modelo de atendimento pré-hospitalar em funcionamento no estado.
Ao tentar frear a crise, Piveta afirmou que o SAMU não será encerrado e classificou como equivocada a interpretação de que o governo estaria promovendo o fechamento do serviço. Segundo ele, a proposta em andamento busca apenas reorganizar a logística de atendimento, com foco na redução do tempo de resposta às ocorrências.
“O cidadão precisa é de resposta rápida. Se o Corpo de Bombeiros estiver mais perto, por que não atender?”, declarou o governador ao justificar a integração entre os serviços.
Piveta explicou que o SAMU é um programa federal de adesão municipal e destacou que, em Mato Grosso, o modelo possui particularidades, especialmente em Cuiabá, onde o Estado assumiu a operação em razão da ausência de adesão municipal em gestões anteriores. Segundo ele, a cooperação com o Corpo de Bombeiros já existe desde administrações passadas e vem sendo ampliada como estratégia para otimizar recursos e ampliar a cobertura do atendimento.
De acordo com o governador, o principal argumento para a reestruturação está nos indicadores operacionais. Dados apresentados pelo governo apontam que o tempo médio de resposta caiu de aproximadamente 25 minutos para 17 minutos após o início da integração, com meta de reduzir esse intervalo para até 10 minutos.
Outro ponto que ampliou a tensão foi o desligamento de profissionais vinculados ao serviço. Piveta negou demissões e afirmou que houve apenas o encerramento natural de contratos temporários com duração de dois anos. Segundo ele, cerca de 38 vínculos foram finalizados, sem impacto direto no funcionamento do atendimento. O governador também afirmou que novas contratações poderão ser realizadas, caso haja necessidade.
Mesmo com a tentativa de pacificação, a resposta do governo não foi suficiente para conter a pressão política. Na Assembleia Legislativa, deputados estaduais passaram a cobrar mais transparência sobre a condução das mudanças e pediram revisão imediata dos desligamentos. A Comissão de Saúde da Casa formalizou questionamentos ao Executivo e cobrou esclarecimentos sobre a manutenção das unidades e das equipes em atividade.
Nos bastidores, parlamentares avaliam que a crise foi agravada pela forma como a comunicação foi conduzida pelo governo, considerada precipitada e mal calibrada. A avaliação é de que a falta de clareza no anúncio abriu espaço para interpretações de desmonte e elevou a tensão entre servidores, categoria e população.
Do lado dos profissionais do SAMU, o clima segue de insatisfação. Trabalhadores relatam insegurança, denunciam perda de postos de trabalho e temem o enfraquecimento da estrutura tradicional do atendimento pré-hospitalar. Em audiências e manifestações públicas, representantes da categoria têm defendido a manutenção da autonomia do serviço, a valorização das equipes e a ampliação da estrutura já existente.
Enquanto isso, o governo sustenta que a integração com os Bombeiros representa modernização e ganho de eficiência. A gestão estadual afirma que o modelo ampliou a cobertura operacional, aumentou o número de bases e permitiu respostas mais rápidas em situações de urgência.
A crise, no entanto, ultrapassa os indicadores técnicos e expõe um embate político e institucional sobre o futuro de um dos serviços mais sensíveis da rede pública de saúde. De um lado, o governo sustenta a narrativa de eficiência e reestruturação. Do outro, parlamentares e profissionais cobram garantias de que a mudança não resultará em perda de qualidade, autonomia ou capacidade de atendimento.
Ao admitir ruído na comunicação, mas manter o discurso em defesa da mudança, Piveta tenta reequilibrar a narrativa em meio a uma crise que ainda deve permanecer no centro do debate político e social em Mato Grosso nos próximos dias.