A pastora Orminda Carlos de Barcelos, mãe da missionária Rhavenna Barcelos Cabeça de Almeida, é apontada pelo Ministério Público Estadual (MPE) como uma das pessoas que teriam exercido papel de ligação entre integrantes de uma facção criminosa presos na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá, e membros que estavam em liberdade.
Segundo a denúncia, Orminda era tratada como “mãe” por integrantes do grupo encarcerados na unidade prisional e teria utilizado sua atuação em trabalhos evangelísticos para manter acesso ao sistema penitenciário. A acusação também aponta que ela teria participado da comercialização ilegal de armas, guardado dinheiro e intermediado a entrega de itens e mensagens para integrantes da organização.
As suspeitas fazem parte das investigações da Operação Fariseus, que apura a possível utilização do projeto religioso “Resgatando Vidas” para oferecer apoio logístico, financeiro e de comunicação à facção.
Orminda e o marido, o pastor Nivaldo de Almeida, foram alvos de mandados de busca e apreensão em julho. A filha do casal, Rhavenna, foi presa durante a operação. Nivaldo morreu neste mês.
Mensagens tratadas como evidências
Cartas e mensagens anexadas ao processo mostram, conforme a investigação, que detentos apontados como integrantes da facção tratavam Orminda como “mãe”. Os investigadores também identificaram comunicações nas quais ela teria recebido pedidos para guardar dinheiro em espécie e intermediar entregas.
Relatórios da Diretoria de Repressão ao Crime Organizado (Draco/GCCO) também apontam uma suposta participação da pastora na comercialização de armas destinadas a integrantes da organização.
Em uma mensagem enviada à filha, em 5 de novembro de 2024, Orminda teria afirmado que iria até um sítio buscar uma arma para vender.
“ Nois vai lá no sítio buscar uma arma para vender”, diz o trecho citado na investigação.
Os relatórios também mencionam imagens nas quais, segundo os investigadores, Orminda aparece com armas.
“Vida de aparência”
Outro conjunto de mensagens analisado pela investigação envolve um desabafo atribuído à pastora. Em conversa com Rhavenna, Orminda teria afirmado que tomaria “uma decisão muito forte” e que não suportava mais viver “de aparência”.
“Rhavenna, hoje à noite vou anunciar uma decisão muito forte, mas não dou conta mais de viver de aparência”, escreveu, segundo a denúncia.
Na sequência, Rhavenna teria respondido: “Somos uma família suja”.
As mensagens foram incluídas na investigação como parte dos elementos utilizados pelo Ministério Público para sustentar a acusação contra a família.
Recados atribuídos a liderança da facção
A denúncia também aponta que Orminda teria intermediado a comunicação entre Rhavenna e Renildo Silva Rios, conhecido como “Veio” ou “Chapa”, apontado pelos investigadores como uma das lideranças da facção em Mato Grosso. Ele cumpre pena superior a 76 anos de prisão.
Segundo o MPE, Renildo e Rhavenna mantinham um relacionamento amoroso. Em conversas de dezembro de 2024, Orminda teria repassado à filha orientações atribuídas ao detento.
Em uma das mensagens, conforme a acusação, ela teria transmitido um pedido para que Rhavenna “vigiasse o morro” durante uma passagem pelo Rio de Janeiro.
A pastora também aparece na investigação em conversas relacionadas a Jonas Souza Gonçalves Júnior, conhecido como “Batman”, apontado como integrante de relevância da facção e considerado foragido desde 2024.
De acordo com os investigadores, Rhavenna também teria mantido um relacionamento com ele. Uma das mensagens analisadas indicaria que Orminda tinha conhecimento sobre a fuga de “Batman” e avisou a filha de que ele já havia deixado o presídio.
Registros reunidos no processo também apontam que mãe e filha estiveram na residência do foragido em um complexo de favelas no Rio de Janeiro.
Dinheiro sob suspeita
A investigação também apura uma possível participação de Orminda na movimentação financeira atribuída à organização criminosa.
Segundo o MPE, ela estaria entre as pessoas que receberam e administraram valores em contas bancárias que teriam sido utilizadas para pulverizar recursos supostamente provenientes do tráfico de drogas e de cobranças feitas pela facção.
Mensagens analisadas pelos investigadores indicariam recebimentos, depósitos e repasses de dinheiro em espécie.
“Observou-se, ainda, que muitos valores são recebidos em espécie, sendo fracionados entre os familiares para pagamento de despesas e repasse para terceiros não identificados (‘meninos’)”, aponta trecho da investigação citado na denúncia.
O caso continua sob apuração e as acusações apresentadas pelo Ministério Público ainda serão submetidas à análise da Justiça.