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Crises globais pressionam custos, exportações e consumo na fruticultura brasileira

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Mudanças no cenário geopolítico internacional, aumento dos custos logísticos, barreiras sanitárias e oscilações cambiais já impactam diretamente a fruticultura brasileira e o que chega à mesa do consumidor. Os efeitos dessas transformações foram debatidos durante mais uma edição da série “Debates em Socioeconomia”, promovida pela Embrapa, com o tema “Fruticultura brasileira: como crises globais impactam o que chega à sua mesa”.

O encontro reuniu pesquisadores, economistas e representante do setor produtivo para discutir os principais desafios da fruticultura brasileira, em especial os impactos das mudanças recentes no cenário global em importantes cadeias produtivas como a manga, uva e laranja. Moderador do evento, o pesquisador da Embrapa Semiárido Pedro Gama destacou que a iniciativa visa analisar as tendências, gargalos e perspectivas das principais cadeias da agropecuária brasileira, além de identificar demandas prioritárias de pesquisa frente aos obstáculos estruturais e tecnológicos que limitam seu o desenvolvimento.

Na abertura do evento, o chefe-geral da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Francisco Laranjeira, ressaltou a importância econômica e social do setor, lembrando que a fruticultura brasileira movimenta bilhões de reais por ano, gera empregos e ainda possui potencial de expansão no mercado internacional. Entre os desafios destacados por ele está o consumo de frutas, ainda considerado baixo no Brasil e no mundo, reforçando que “se é um desafio, o aumento no consumo também é uma oportunidade”.

Laranjeira também chamou atenção para as questões sanitários que afetam a competitividade do setor, podendo impactar a produção interna, mas também a exportação. “Os países importadores terminam usando questões de sanidade vegetal como uma arma geopolítica”, afirmou. Entre os exemplos citados que ameaçam a fruticultura nacional estão o greening dos citros, o cancro da videira e a mosca-da-carambola.

Guerra, tarifas e inflação

O economista e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Felipe Serigati analisou os impactos da guerra envolvendo Irã e Israel sobre a economia mundial e o agronegócio brasileiro. Ele destacou que o cenário pressiona a inflação e reduz a perspectiva de queda nas taxas de juros. “O agro já vinha enfrentando um cenário de endividamento elevado e a guerra do Irã piora isso”, afirmou.

Segundo Serigati, os conflitos internacionais provocaram aumento nos preços do petróleo, impactando combustíveis e fertilizantes e elevando os custos de produção agrícola. No entanto, ele afirma que “esse é um choque de custos clássico. Naturalmente com as suas especificidades, mas a gente já viu algo nessa natureza antes, o que facilita a criação de cenários”.

Com base em dados de recente relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), o pesquisador apontou que, embora os impactos sejam sentidos em todo o mundo, chega em cada país de forma distinta, e o Brasil está entre os menos impactados, particularmente por ser exportador líquido de petróleo. “Ninguém vai passar ileso à guerra no Irã, mas comparado a outras economias, a nossa situação não é das piores”.

O pesquisador alertou, ainda, para a possibilidade de retorno de medidas protecionistas dos Estados Unidos. Para ele, ainda que a Suprema Corte tenha determinado que o chamado “tarifaço”, como vinha sendo feito, era ilegal, existe uma demanda interna de alguns segmentos por essa proteção. “Cedo ou tarde, nós temos esse cenário de que alguma coisa das tarifas ainda vai voltar. Não daquela forma abrupta talvez como fez ali o ano passado, mas vai voltar, então estejamos todos preparados”.

Alta de custos e barreiras para uvas

Representando o setor produtivo do Vale do São Francisco, o produtor Edis Matsumoto apresentou uma análise detalhada de todos os custos envolvidos na cadeia da uva voltada à exportação, desde o campo até chegar nos mercados internacionais, em especial o europeu. Segundo ele, o aumento dos custos logísticos já afeta diretamente a rentabilidade dos produtores.

Matsumoto explicou que o frete marítimo, o transporte interno, as embalagens e os insumos devem sofrer novos reajustes devido à alta do petróleo e à instabilidade internacional. “Vários fatores já trazidos anteriormente vão impactar sim o nosso negócio”, afirmou.

Outro desafio apontado como importante barreira comercial foi o aumento das exigências europeias relacionadas ao limite máximo de resíduos químicos nas frutas. De acordo com ele, os produtores têm cada vez menos ferramentas de controle fitossanitário.

Ele também alertou para a dependência crescente de variedades desenvolvidas por empresas privadas e defendeu investimentos contínuos em inovação genética. Matsumoto destacou a importância de cultivares desenvolvidas pela Embrapa, como a BRS Vitória, para a expansão recente da viticultura no Vale do São Francisco.

Incerteza na citricultura

A pesquisadora Margarete Boteon, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-Esalq/USP), apontou para um momento desafiador para a citricultura, mesmo sendo esta “uma cadeia extremamente eficiente e resiliente, tanto em termos de comercialização quanto de produção”.

O Brasil desponta no mercado como o maior fornecedor global de suco de laranja – a cada 10 copos consumidos no mundo, oito são brasileiros. Ela contou que, “quando veio o anúncio do tarifaço, no ano passado, foi uma bomba realmente pro setor, mas sabia-se que não teria outra fonte para atender os Estados Unidos”. Isso fez com que, em pouco tempo, o produto tenha sido um dos primeiros isentos das tarifas extras, embora o suco de laranja brasileiro já enfrente tarifas elevadas no mercado internacional.

Boteon destacou também o conflito no Oriente Médio, que elevou os custos com fertilizantes, combustíveis e logística, enquanto a citricultura brasileira enfrenta simultaneamente problemas estruturais como o avanço do greening (HLB), principal doença da cultura. Para ela, a questão fitossanitária é um choque ainda maior que as crises geradas pelos conflitos. “Não tem margem de manobra, não dá pra investir menos esse ano porque o preço está mais barato, porque você tem uma doença em xeque. Se não fizer os tratamentos sanitários adequados, você não tem produção, e se não tem produção, aí que não tem receita”, explica.

A pesquisadora também apontou preocupação com a queda do consumo internacional de suco de laranja e com medidas regulatórias adotadas na Europa, como propostas de restrição ao consumo de sucos em merendas escolares. Ela avalia que o setor entra em 2026 em um cenário de grande incerteza, com estoques elevados, demanda enfraquecida e necessidade crescente de ganhos de eficiência.

Efeitos do “tarifaço” na manga

Encerrando o debate, o pesquisador João Ricardo Ferreira de Lima, da Embrapa Semiárido, apresentou os efeitos das crises globais sobre a cadeia da manga, especialmente no Vale do São Francisco, que é responsável por cerca de 92% das exportações brasileiras da fruta.

Lima apontou que o anúncio de sobretaxas pelos Estados Unidos gerou forte insegurança entre exportadores no início da safra de 2025. “Ninguém estava tentando vender sua fruta, literalmente era: ‘como é que eu faço para me livrar dessa fruta?’”, relatou. Segundo ele, a incerteza sobre o que poderia acontecer com o volume produzido e o pessimismo nesse momento provocou uma elevada especulação, com preços muito abaixo da média histórica.

Apesar da tensão inicial, problemas nas safras de países concorrentes, como México e Equador, acabaram favorecendo as exportações brasileiras. João Ricardo apontou que os preços internacionais permaneceram acima da média por várias semanas, permitindo que as exportações fossem mantida mesmo com o pagamento dos impostos.

O pesquisador destacou ainda o crescimento acelerado da manga no Vale do São Francisco, que, com o crescimento da área plantada e da produtividade por área, mais que triplicou o volume produzido de mangas em um curto espaço de tempo. Segundo ele, as exportações também cresceram, ajudando a retirar uma parte desta manga produzida, mas não na mesma velocidade da produção.

Para Lima, o principal desafio agora está relacionado a questões climáticas e ao comportamento da taxa de câmbio. Segundo ele, a valorização do Real frente ao dólar não favorece os exportadores, pois recebem menos reais para cada dólar.

Debates em Socioeconomia

O encontro, que ocorreu no dia 14 de maio, foi realizado pela Rede de Socioeconomia da Agricultura da Embrapa (RSA). A iniciativa contempla o papel estratégico da Empresa voltado à ampliação da previsibilidade no agro brasileiro. O coordenador da Rede, Pedro Abel, ressalta que “essa função é particularmente relevante em cadeias intensivas em conhecimento, como a fruticultura, e em ambiente marcado por elevada incerteza econômica, tecnológica e climática”.

O debate on-line “Fruticultura brasileira: como crises globais impactam o que chega à sua mesa” pode ser assistido no canal da Embrapa no Youtube, no link: www.youtube.com/watch?v=gqbqvFXT9P8

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Risco milionário: A prevenção jurídica no campo deixou de ser opção

Michael Graça é advogado especialista em agronegócio

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Conforme artigo publicado pela Universidade de Rio Verde, por meio do programa de pós-graduação da instituição, pequenos produtores rurais enfrentam dificuldades para cumprir exigências regulatórias devido à falta de orientação especializada e às dificuldades de acesso à informação. O dado ajuda a explicar uma realidade comum no agronegócio brasileiro: muitos produtores ainda enxergam a assessoria jurídica como um custo emergencial, acionado apenas quando o problema já se transformou em autuação, execução judicial ou perda patrimonial.

No entanto, o cenário atual do agro exige exatamente o contrário. O aumento da complexidade tributária, ambiental, contratual e sucessória tornou a atuação preventiva uma necessidade estratégica para proteger propriedades, evitar prejuízos milionários e garantir a continuidade da atividade rural.

Grande parte dos conflitos enfrentados hoje no campo nasce de decisões tomadas sem análise técnica adequada. Contratos assinados “na confiança”, renegociações bancárias feitas sem avaliação jurídica e acordos estruturados de maneira informal podem comprometer patrimônios construídos ao longo de gerações. Em muitos casos, o produtor rural aceita cláusulas abusivas, juros acima do permitido pela legislação ou oferece bens em garantia sem compreender os riscos envolvidos. O resultado pode ser o agravamento da própria dívida e a exposição direta do patrimônio à execução.

Esse problema se agrava porque muitos produtores só procuram orientação quando a situação já está avançada. Em disputas envolvendo terras, contratos ou tributos, a demora para agir costuma aumentar significativamente os prejuízos. A inércia pode levar à perda de prazos processuais, dificultar a produção de provas e reduzir as possibilidades de negociação ou revisão judicial. Em outras palavras, esperar o conflito explodir quase sempre custa mais caro do que preveni-lo.

Outro ponto crítico está na informalidade ainda presente em diversas relações do agronegócio. Arrendamentos, parcerias agrícolas e acordos verbais continuam sendo realizados apenas com base na confiança pessoal. Embora a boa-fé seja importante, ela não substitui segurança jurídica. Quando surgem problemas relacionados à divisão de custos, entrega da produção, produtividade, inadimplência ou responsabilidades contratuais, a ausência de documentação clara transforma conflitos simples em disputas longas e financeiramente desgastantes.

Além disso, o avanço da fiscalização sobre holdings rurais, sucessão patrimonial e estruturas tributárias demonstra que o agro opera em um ambiente cada vez mais técnico. Isso não significa que o produtor precise dominar profundamente todas as áreas do Direito, mas sim compreender que a atividade rural moderna depende de assessoria especializada permanente. Quanto melhor o suporte técnico, menores os riscos operacionais, financeiros e patrimoniais.

Nesse contexto, a organização jurídica também exerce papel fundamental na proteção familiar. Planejamento sucessório, estruturação patrimonial e definição adequada das atividades empresariais ajudam a evitar litígios entre herdeiros, reduzir riscos tributários e preservar a continuidade da produção rural. Em um setor onde patrimônio e atividade econômica frequentemente se confundem, a ausência de planejamento pode gerar dilapidação patrimonial e conflitos que comprometem décadas de trabalho.

O agronegócio brasileiro tornou-se sofisticado demais para depender exclusivamente da improvisação. A figura do produtor que resolve questões jurídicas apenas quando o problema aparece já não se sustenta diante da realidade atual. Hoje, proteger o patrimônio rural exige acompanhamento contínuo, revisão preventiva de contratos, análise estratégica de dívidas, regularidade documental e planejamento sucessório estruturado.

No campo, decisões jurídicas mal avaliadas não geram apenas transtornos burocráticos. Elas podem comprometer safras, propriedades, relações familiares e a própria continuidade da atividade produtiva. E, justamente por isso, a orientação jurídica preventiva deixou de ser um luxo para se tornar uma ferramenta essencial de segurança, estabilidade e preservação patrimonial no agronegócio brasileiro.

Michael Graça é advogado especialista em agronegócio

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Defesa nega descumprimento de medidas e aponta instabilidade em equipamento eletrônico

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A defesa da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos solicitou ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a realização de uma avaliação técnica na tornozeleira eletrônica utilizada pela cliente.

O pedido foi apresentado após relatório apontar 88 ocorrências de ausência de sinal de GPS entre os dias 4 e 10 de maio.

Os advogados também solicitaram a substituição do equipamento de monitoramento eletrônico, alegando possíveis falhas recorrentes no sistema.

A Procuradoria-Geral da República chegou a pedir o envio de um ofício à administração penitenciária de Paulínia para esclarecimentos sobre os registros de perda de sinal.

Entretanto, segundo a defesa, as ocorrências já haviam sido questionadas anteriormente, em manifestação apresentada no dia 1º de maio. Os advogados sustentam que os registros não estariam ligados ao descumprimento das medidas impostas pela Justiça, mas sim a problemas técnicos no equipamento.

Em decisão recente, Alexandre de Moraes optou por não encaminhar imediatamente o pedido de esclarecimento à administração penitenciária e determinou que a própria defesa apresentasse explicações sobre o caso.

No despacho, o ministro também alertou sobre a possibilidade de revogação da prisão domiciliar em caso de eventual descumprimento das condições estabelecidas judicialmente.

No dia seguinte à intimação, os advogados encaminharam nova manifestação ao STF reiterando que não houve violação das regras impostas pela Corte.

Segundo a defesa, não existem registros de bateria descarregada no equipamento, fato que, na avaliação dos advogados, afastaria qualquer hipótese de negligência por parte da condenada.

O documento apresentado ao Supremo também argumenta que, nos períodos em que o GPS funcionou normalmente, os dados demonstrariam que Débora permaneceu dentro da área autorizada pela Justiça.

A defesa ainda afirma que as falhas ocorreram em curtos intervalos e repetidas vezes ao longo do mesmo dia, característica que, segundo os advogados, indicaria instabilidade de sinal ou defeito técnico no equipamento.

Débora Rodrigues dos Santos foi condenada a 14 anos de prisão pelo STF pelos atos ocorridos em 8 de janeiro de 2023.

O caso ganhou repercussão nacional após a condenação relacionada à frase “perdeu, mané”, escrita com batom na Estátua da Justiça durante a invasão às sedes dos Três Poderes, em Brasília.

A expressão faz referência a uma declaração feita anteriormente pelo ministro Luís Roberto Barroso após as eleições presidenciais de 2022.

O episódio passou a ser citado por apoiadores da condenada em debates sobre proporcionalidade das penas aplicadas aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.

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Meninos negros são maioria entre vítimas de homicídios no Brasil, revela levantamento

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Um levantamento divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, UNICEF, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelou um cenário alarmante da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil. O estudo reúne dados registrados pelas polícias e órgãos de segurança pública das 27 unidades federativas entre os anos de 2016 e 2020.

De acordo com o panorama, o país contabilizou 34.918 mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes no período analisado, o que representa uma média de aproximadamente 6.970 vítimas por ano.

A pesquisa mostra que adolescentes entre 15 e 19 anos representam a maior parte das vítimas. Mais de 31 mil mortes registradas ocorreram nessa faixa etária. Apesar disso, o estudo também chama atenção para os índices envolvendo crianças pequenas. Pelo menos 1.070 vítimas tinham até 9 anos de idade. Somente em 2020, foram registradas 213 mortes violentas intencionais entre crianças dessa faixa etária.

O levantamento aponta diferenças significativas no perfil das vítimas conforme a idade. Entre crianças de até 9 anos, 33% das vítimas eram meninas, 44% eram brancas e 40% morreram dentro de casa. Em relação aos meios utilizados, 46% dos casos envolveram armas de fogo, enquanto 28% ocorreram por uso de armas brancas ou agressões físicas.

Já entre adolescentes de 10 a 19 anos, o perfil predominante é de meninos negros. Segundo o estudo, 91% das vítimas eram do sexo masculino e 80% eram negras. Além disso, 83% das mortes nessa faixa etária ocorreram por disparos de arma de fogo.

Outro dado que chamou atenção dos pesquisadores foi o crescimento da violência letal contra crianças de 0 a 4 anos. Nos 18 estados que apresentaram dados completos para a série histórica, houve aumento de 27% no número anual de mortes violentas nessa faixa etária entre 2016 e 2020, enquanto as demais idades registraram redução.

O relatório destaca ainda a desigualdade racial presente nos indicadores de violência. Meninos negros aparecem como maioria das vítimas em todas as faixas etárias analisadas. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, quatro em cada cinco vítimas eram negros.

Segundo o estudo, adolescentes negros também são os principais atingidos em ocorrências envolvendo intervenções policiais, reforçando o debate sobre desigualdade social, vulnerabilidade e violência estrutural no país.

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