A atuação no judiciário é um desafio diário para profissionais, operadores do direito, que escolheram encarar a difícil tarefa de lutar para garantir a justiça e os direitos de qualquer cidadão. Conciliar essa tarefa com outras tão difíceis quanto ensinar, escrever, se atualizar constantemente sobre a profissão, ser mãe e esposa são papéis que só podem desempenhados por um “sexo frágil”.
Amini Haddad Campos é Juíza de Direito do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, professora Efetiva da Universidade Federal de Mato Grosso, mestre em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com Curso de Doutorado em Direitos Humanos pela Universidade Católica de Santa Fé na Argentina, especialista em Direito Civil, Processo Civil, Direito Penal, Processo Penal, Direito Administrativo, Constitucional e Tributário e MBA em Poder Judiciário pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Detém curso de Extensão e Estágio nas Cortes Americanas do Estado da Geórgia, Athens, Estados Unidos, bem como na Suprema Corte da Argentina e nas Cortes de Justiça do Canadá (Toronto, Montreal e Quebec). Graduada e Laureada pela Universidade Federal de Mato Grosso. Membro da Academia Mato-Grossense de Letras (AML) e da Academia Mato-Grossense de Magistrados (AMA), na qual já foi presidente. Somado a esse vasto currículo, com tantos outros títulos, está uma percepção feminina e poética do todo e uma missão maior: cuidar de pessoas.
Aos 24 anos, Amini entrou no concurso para a magistratura. Hoje, no Juizado Especial Criminal, ela revela um pouco da sua paixão pela profissão “eu amo a magistratura, porque é aqui que eu posso ajudar, eu sei que as pessoas precisam muito serem acolhidas, elas vêm até o judiciário porque elas precisam de justiça, olha que valor lindo”. No entanto, algumas pressões geram um pouco de angústia “ninguém sabe como é estar desse lado, fazer julgamento de pessoas, ponderar o que é melhor em cada processo, o que cada sentença significa na vida daquelas pessoas, é muito difícil”, completa.
Atuar na magistratura exige algumas decisões difíceis. Destituir um pai do poder familiar, colocar uma criança em outra família, determinar prisões ou atendimento em hospitais, é diante de fatos como esse que Amini se encontra diariamente, uma angústia permanente e uma demanda de milhares de processos, mas que nunca a fizeram desistir de tentar resolver da melhor forma a parte mais difícil da vida das pessoas mesmo sabendo pouco sobre a realidade de cada um. “O meu olhar não é do todo, o meu olhar é sempre aquilo que eu tenho no processo e a vida é muito mais que aquilo”, lamenta.
A juíza carrega um olhar diferenciado sobre como atuar nas questões criminais. Sua maneira de enxergar além do comum, é uma aliada de sua carreira na magistratura, onde ela desenvolve sua maior paixão: o cuidado com o próximo. A cada processo um dilema, uma história diferente, uma ou mais pessoas dependentes de uma só decisão. Neste contexto, Amini procura agir com cautela a fim de determinar, da forma mais justa possível, o futuro de muitas vidas.
Paralelamente à magistratura, Amini é membro da AML e declara que “é uma grande honra” estar na cadeira 39, que já foi ocupada pelos imortais Dunga Rodrigues e Antônio Cesário de Figueiredo Neto. É na Academia que ela se sente ainda mais direcionada à realidade de se doar ao próximo. “É uma atuação de voluntariedade, de interesse na temática da educação, do desenvolvimento humano, da história que é construída, de uma nação, de um povo, a atuação na academia é algo que me motiva”, explica. Essa experiência a faz sentir mais próxima de pessoas que carregam em si um pouco desse horizonte de se dedicar para o outro, de pensar no coletivo, atitude que ela classifica como um objetivo importante diante das vulnerabilidades sociais que o país enfrenta atualmente. “Esse momento demanda muita reflexão de qual é a nossa função para com o todo, para com tudo que estamos vivenciando, tudo que de fato representa esse momento histórico no Brasil”, explica. Seu olhar positivista a leva a crer que, embora o país esteja enfrentando uma crise considerável, não só na política, mas de representatividade, de valor humano, de respeito e de compromisso com o outro e com o coletivo, a AML lhe oferece um norte sobre a reflexão dos aspectos da atualidade.
Amini se identifica com a Academia de Letras pela visão solidária e isso é uma grande motivação em todas as áreas de sua vida, já que sua grande paixão é se doar. “Esse sentido é maior do que eu”, destaca. O grande questionamento que permeia sua vida é “o que podemos fazer para o todo?”. Existe em Amini uma grande preocupação em não viver individualmente, mas viver para o próximo, ser comprometida com o outro e com o coletivo. “Eu procuro viver a minha vida dessa forma, eu amo o que eu faço, amo mesmo, amo cuidar de pessoas, amo produzir, amo escrever”, revela.
Após se formar na faculdade de Direito na UFMT, Amini realizou o sonho de dar aulas. Como professora de Processo Civil no quinto ano da mesma instituição, um de seus objetivos é incentivar seus alunos ao questionamento do momento presente da vida, da história que eles estão construindo, no sentido de compartilhamento humano, de relevâncias sociais e quais são os objetivos que eles possuem diante da vida. “Eu acho que essa medida é necessária, a gente precisa ter um novo direcionamento, ter senso crítico do que nos trouxe até aqui”, explica. “É exatamente esse o sentido que eu encontrei na Academia, essa reflexão permanente, esse viver não só no sentido filosófico do contexto de questionar-se e questionar o todo, mas de viver também a partir do outro, a partir não só desse olhar autocrítico, mas no sentido de acolher, ser solidário, perceber que nós somos um conjunto, será que isso não é mais evidente?”, questiona.
Amini ama ensinar e revela que “ganha a vida” fazendo isso. Mas o ganhar a vida para quem se alimenta das coisas pequenas e belas, vai além de um bom salário, é meramente se sentir realizada por aquilo que faz. “Não se paga por educação nesse país, eu não dou aula pelo valor, é pelo amor”, explica. Para ela dar aulas é uma verdadeira terapia, é onde ela alimenta a alma após presenciar tantos problemas e situações nos processos criminais. “É como se me dessem um antidepressivo, eu olho aqueles alunos com tanta vontade de escrever diferente a vida, estudiosos, dedicados, começando a escrever a história deles, isso me deixa muito feliz, é o maior salário”, conta emocionada.
Como escritora, Amini lançou inúmeros artigos e outras dezenas de livros jurídicos, além das suas poesias. O gosto por escrever nasceu através da leitura. “Eu sempre gostei muito de ler, as letras eram desmedidas, o conjunto misterioso que as palavras podem expressar me encantava”, explica. A autora cita Cecília Meireles e Clarisse Lispector como algumas de suas inspirações, pois acredita que foram escritoras que colocavam muita emoção e experiência de vida e até de solidão em suas obras, incentivando-a a escrever suas poesias ainda na infância.
A poesia surge naturalmente em seu falar e em seu viver, através da admiração de aspectos da vida de pessoas na dor e no amor. “Admirar não significa querer viver aquilo, mas o admirar no sentido da complexidade, as vezes você vê uma pessoa na verdadeira miséria da vida e a complexidade daquela situação oprime a pessoa e ela não consegue viver além daquilo, aquela dor parece ser insubstituível por outra situação, as vezes as pessoas se limitam a essa dor e vivem de tal forma que morrem em vida”, declara. Grande parte de suas obras falam sobre vulnerabilidade. Seu contato com dependentes químicos lhe proporciona uma visão sobre a complexidade da dor que gera a motivação de querer conhecer além, questionar e escrever sobre isso. “Me encanta, no sentido de surpresa, perceber como o ser humano é capaz das maiores significâncias no contexto da vida, tanto para destruir quanto para construir e o quanto aqueles que se submetem à destruição podem fazer contra si mesmos e contra todos em volta”, explica.
O empenho em se preocupar com o próximo e cuidar das pessoas fala ainda mais alto quando se trata do vínculo familiar. É com muita emoção e lágrimas nos olhos que Amini conta sobre seu amor por seus filhos Natalie, de 16 anos, e Tales Mateus, de 12 anos, e seu marido, o violinista e promotor de justiça, Joelson de Campos Maciel, com quem é casada há quase 18 anos. “Eles são estrelas da minha vida, são a minha melhor parte, valores que acrescem em sentido a minha existência, não consigo imaginar a minha vida sem eles”, declara.
Aos 9 anos de idade, Amini Haddad escreveu a poesia “Saudade”, que foi premiada no Colégio Notre Dame de Lourdes, em 10 em fevereiro de 1984. Leia:
Saudade…
Sinto em ti um mar de devaneios…
Pensamentos que torturam o tempo…
Nos minutos que me são breves…
De incontroláveis sentimentos…
Amados momentos…
Lamentos da distância…
Cruas lembranças…
De ti em segredo…
Memórias e retratos…
Um triste fato marcado…
Nas breves nuvens do céu…
Da vida de um tempo…
Restam-me memórias…
Saudades e lágrimas…
Dessa história…
De uma história de amor…
Distância necessária…
Um momento de dor…
Quem não sofre o dissabor
De uma saudade?
Ah, quanta maldade naquele adeus…
Em sonhos que já fora teus…
Ah, meu amor…
O porquê de tanta dor?
Sigo em silêncio…
Na tempestade dos sentimentos…
Procurando entender a saudade…
Escondendo as lágrimas do tempo…
E… Daquele adeus, ficaram as presenças…
Eternas passagens das minhas lembranças…
Que em teus olhos se perderam…
Eternamente em esperança…
Ah, meu amor…
Sinto em ti um mar de devaneios…
Amados momentos…
Em memórias e retratos…
Fonte: Cultura Popular